Festival FALA! posiciona narrativas negras no centro do debate da comunicação, em Salvador
O evento promoveu imersão cultural com conexões, formação e debates entre comunicadores(as).
O Cendhec participou da 7ª edição do Festival FALA!, realizado em Salvador, entre 20 e 22 de agosto. O encontro itinerante retornou à capital baiana, palco da primeira edição presencial, em 2022, com atividades na Casa de Castro Alves, localizada em Santo Antônio Além do Carmo, no sítio histórico da cidade. O evento reúne, anualmente, jornalistas, pesquisadores, comunicadores populares e estudantes em uma agenda de discussões nos campos da comunicação, cultura e jornalismo de causas.
Realizado pelo Instituto FALA!, o encontro propôs o tema “Comunicação que atravessa o tempo e as telas”, com programação inspirada na obra “Imaginários Emergentes e Mulheres Negras”, da pesquisadora Rosane Borges. A edição de 2026 presta homenagem ao geógrafo Milton Santos (in memoriam) e à educadora Ana Célia da Silva, saudando e reconhecendo quem veio antes e sua vasta contribuição para o presente e o futuro da prática da comunicação no país.

No intercâmbio entre territórios e áreas de atuação pelos direitos humanos, o Cendhec foi representado pelas equipes de Comunicação, com Luana Farias, jornalista, e Camila Deschamps, estagiária de Jornalismo; e pelo Programa Direito à Cidade (DC), por meio de Cristinalva Lemos, assistente social, e Nathalya Kelly, estagiária de Serviço Social. Acompanharam a equipe da OSC, Elaine Maria e Tammires Freitas, participantes das formações “COM.Vozes: Comunicação Comunitária em Pauta”, e “Libélulas: Mulheres Protagonistas Pela Justiça Climática”.
O Festival é gratuito e expande as barreiras temporais e geográficas, tornando-se palco para que vozes plurais ecoem e que entidades e territórios de todo o país tenham espaço para discutir comunicação, seus direitos e suas tecnologias.
Diversidade FALA!

O encontro iniciou no dia 19, com um momento de “Esquenta” para a articulação de coletivos e mídias independentes, e introdução de diálogos sobre proteção digital, desinformação e poder, o combate às disputas de narrativas e o enfrentamento ao racismo em todas as suas esferas. A partir do dia 20, palestras, rodas de conversa e oficinas discutiram o futuro da comunicação e o combate às desigualdades estruturais a partir da ótica da ancestralidade e da decolonialidade.
Participaram das mesas profissionais renomadas/os no campo dos estudos da comunicação na Bahia, que enriqueceram os debates ao olhar para as tecnologias por meio de uma concepção interseccional. Também contribuíram comunicadores e representações da Comunidade LGBTQIAPN+ e de povos indígenas, adicionando perspectivas e caminhos para pensar um jornalismo de causas cada vez mais democrático e plural.
“A internet precisa de educação”
Xohãni Pataxó, comunicador indígena do Sul da Bahia, palestrante.



Intervenções artísticas abrilhantaram a Casa de Castro Alves e deram início a cada dia de debate. Negra Jhô, Jann Souza, Nola Criola, Urubu MC, Sued Hosaná, Nayri, Samba da Lua e Ministereo Público Sound System alegraram o Festival com suas músicas, sons e movimentos, em fluxo de valorização das identidades negras e suas potências culturais.
Oportunidade singular de troca entre profissionais de diversos campos de atuação na comunicação, o evento foi palco de diálogos importantes sob a perspectiva do jornalismo de causas. Olhar para os territórios e para as vozes historicamente invisibilizadas pelas estruturas hegemônicas é, também, fortalecer protagonismo, histórias e bagagens.

A identidade da edição foi marcada pela diversidade cultural soteropolitana, pela força dos movimentos sociais e pela reverência aos saberes que vieram antes de nós. Na composição da programação, destaca-se, ainda, o tributo às trajetórias do Movimento Negro Unificado (MNU), à União de Negros pela Igualdade (Unegro) e ao legado de Mãe Hilda Jitolu.
Também compareceram ao evento iniciativas como as mídias independentes Afoitas, Gênero e Número e AzMina, além da Angola Comunicação, Aláfia Lab, Blogueiras Negras e representantes de coletivos, institutos e movimentos da sociedade civil organizada.
Lenne Ferreira, jornalista e idealizadora da Afoitas, representou a mídia no Festival. Em diálogo com a equipe do Cendhec, ela resumiu o significado que atribui à profissão e ao evento:
“Jornalismo para mim é propósito. O Festival Fala tem sido reeducação.”
Lenne Ferreira, jornalista na Afoitas.
Ao final de cada edição, a iniciativa lança o Edital FALA! para jornalistas, comunicadores(as) populares, coletivos e mídias independentes do estado em que realizou a programação. A ação promove o fomento de produções culturais e de comunicação que serão compartilhados no Festival seguinte. Na programação deste ano, os coletivos contemplados no edital 2025, de Brasília (DF) e região, exibiram as obras na mostra audiovisual Cine FALA!.
Cendhec no intercâmbio de territórios e trajetórias em Comunicação

As profissionais da Organização da Sociedade Civil (OSC) recifense e as participantes das formações política e de comunicação vivenciaram o Festival Fala! no encontro entre o repertório das suas áreas de atuação e nos conhecimentos acessados no intercâmbio.
Elaine e Tammires, cursistas do Centro, relataram a importância de se verem em espaços como o FALA!, dialogando com tantas e tantos agentes sobre comunicação popular e os obstáculos que as atravessam em seus territórios. Elaine, moradora da Comunidade Paz e Amor, no Ibura de Baixo, comenta sua percepção sobre o evento:
“O Festival FALA! para mim tem sido que a comunicação não só é a fala, é a escrita, é a cultura, é a beleza, é a dança e a resistência.”
Elaine Maria, participante das formações Libélulas e Com.Vozes, do Cendhec.
O curso COM.Vozes, iniciado em novembro de 2025, reúne moradoras do Pina e do Ibura de Baixo, no Recife, para mobilizar as vozes dos territórios e impulsionar a defesa de seus direitos. A formação tem por objetivo final a criação e implementação de núcleos de comunicação comunitária nos bairros das mulheres cursistas. Tammires Freitas vive na Comunidade do Bode, no Pina, e reflete sobre sua visão acerca da comunicação:
“Escutar o avô falar de história, sentar com os amigos e ouvir histórias dos nossos antepassados, isso para mim é poder compartilhar trocas e conversas, isso é comunicação.”
Tammires Freitas, participante das formações Libélulas e Com.Vozes, do Cendhec.

A comunicação se apresenta como um vínculo entre o passado e o futuro. Por meio dela, é possível construir um outro mundo e formas de chegar nele. É caminho para ressignificar, reabitar e ampliar espaços de comunicação para além dos territórios físicos. É preciso pensar o meio digital como um território, local este em constante disputa, atravessada pela desinformação e, principalmente, pelo controle hegemônico. Buscamos a a assimilação da comunicação enquanto esse território, esse espaço habitado e vivido pela população negra com fundamento e propriedade.
O Instituto
Organização sem fins lucrativos, o Instituto FALA! foi fundado por quatro mídias independentes referências no jornalismo de causas: Alma Preta, Marco Zero Conteúdo, 1 Papo Reto e Ponte Jornalismo. Além do Festival, a iniciativa apresenta, também, a Rede de Treinamento e os Editais FALA!.
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