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Abraji promove debates sobre jornalismo investigativo com encontros marcados pela diversidade temática em 21º Congresso

Cendhec integrou a programação com participação em palestras, mesas e oficinas dedicadas a pautas políticas, socioambientais e educacionais

Texto: Camila Deschamps e Luana Farias

Entre os dias 30 de julho e 1º de agosto, o Cendhec esteve na 21ª edição do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, realizado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). O evento aconteceu na Universidade Paulista (Unip), campus Paraíso, em São Paulo/SP, e reuniu jornalistas do Brasil e do mundo, oferecendo três dias com 110 atividades, distribuídas em palestras, debates e oficinas, em 11 trilhas temáticas.

Dispondo de temas como Clima e Meio Ambiente, Direitos Humanos e Democracia e Eleições 2026, congressistas de todos os níveis do ensino superior puderam participar de discussões variadas, que contemplaram problemáticas da atualidade e do jornalismo a partir de diferentes perspectivas. A programação da edição 2026 do Congresso teve um olhar especial para o uso de dados na investigação jornalística, aprimorando o conhecimento técnico do recurso e sua aplicabilidade.

A presença do Cendhec se deu por meio da equipe de Comunicação, formada por Luana Farias, jornalista, e Camila Deschamps, estagiária de jornalismo. Confira os debates que a organização esteve presente:

Dia 1 – quinta-feira, 30 de julho

Como se decide uma eleição? Como cobrir os bastidores das campanhas de 2026?


Membros da mesa discutiram os impactos da inteligência artificial na cobertura eleitoral, a relação entre o eleitorado brasileiro e seus políticos pleiteados e a leitura analítica do jornalismo sobre o campo da política a partir dos grupos que compõem a sociedade.

O debate reforçou, ainda, a polarização do cenário político nacional, que segue instável desde o período pandêmico, e a importância do voto feminino nas eleições deste ano, que, segundo as/os profissionais presentes, será o maior diferencial nos resultados das urnas.

“As mulheres vão definir essas eleições”

Edilene Lopes, repórter e colunista na Rádio Itatiaia e analista na CNN

Os riscos e impactos ambientais e socioeconômicos da corrupção em obras de infraestrutura


A palestra realçou o papel do jornalismo de dados para a identificação e investigação do uso de emendas parlamentares em megaprojetos configurados como crimes ambientais. Os apontamentos foram provocados a partir de experiências profissionais dos jornalistas Nicoly Ambrosio, repórter da Amazônia Real, Flávio Ferreira, repórter especial da Folha de São Paulo, e Kate Surma, repórter do Inside Climate News EUA.

Os palestrantes abordaram os impactos socioculturais causados por grandes obras em localidades tradicionais, e que apresentam graves prejuízos ao modo de vida das populações. Os empreendimentos também assediam áreas socialmente vulnerabilizadas, validando-se do discurso de desenvolvimento, enquanto desapropriam moradoras/es com propostas de indenização injustas e irreais. Nicoly compartilhou o cenário na Região Norte do país sobre uma realidade que se estende a territórios indígenas, quilombolas e áreas de preservação ambiental no território nacional e em países seriamente explorados. 

“Corrupção não é só desvio de dinheiro público, mas também desvio de finalidade, sem projetos que olhem para os riscos socioambientais”

Flávio Ferreira, repórter especial da Folha de São Paulo

No debate, os presentes relataram a insegurança vivida por jornalistas investigativos e, de forma ainda mais agudizada, por moradoras/es das regiões afetadas, que ao denunciarem as infrações são expostas/os a intimidação, assédio, vigilância, além de encontrarem barreiras no acesso à justiça. O momento foi dedicado, também, ao compartilhamento de dicas de segurança. 

Clima e geopolítica num mundo pós-ruptura


O debate se propôs a refletir sobre os fatores econômicos e sociopolíticos atrelados ao aquecimento global, bem como a busca por soluções energéticas em contraste às disputas por combustíveis fósseis. A alocação do eixo da cobertura jornalística geopolítica no sul global também foi pautada, assim como a influência do negacionismo estadunidense no rumo da crise climática que o globo segue em combate.

Uma das integrantes da sessão, Daniela Chiaretti, correspondente de meio ambiente do Valor Econômico, reiterou que os subsídios aos combustíveis fósseis representam uma venda do futuro. A respeito desse ponto, a jornalista fez menção à jovem mexicana Xiye Bastida, ativista por justiça climática nos Estados Unidos.

“Os políticos nos devem um planeta saudável, um clima seguro”

Xiye Bastida, ativista por justiça climática, citada pela jornalista Daniela Chiaretti na ocasião

Mulheres Negras: experiências no jornalismo e na comunicação


A mesa trouxe as vozes e relatos das  jornalistas negras Basília Rodrigues, analista de política do SBT e diretora da Abraji, Luciana Novaes, gerente de Marca e Posicionamento da Fundação Lemann, e Mariana Analdo, repórter da TV Globo, com mediação de Ma Leri, Analista de comunicação da Casa Um. 
As palestrantes evidenciaram as experiências e vivências da carreira jornalística, significativamente atravessadas pelo racismo e misoginia, e ressaltaram as principais estratégias de fortalecimento no exercício da profissão. Dentre as táticas traçadas está a criação e fomento de iniciativas de reparação das desigualdades sociais para garantia do acesso e permanência digna das mulheres negras nos âmbitos comunicacionais, com diversidade de áreas, vínculos e atuações. As palestrantes e as/os participantes da atividade enfatizaram, ainda, a importância de apoiar o jornalismo feito por essa população, que não se restringe apenas às temáticas raciais, embora reconheçam sua relevância. 

Refletindo sobre os impactos das violências raciais e de gênero na saúde mental, a palestra retomou o sentido de aquilombamento, marcado por autocuidado e valorização coletiva. 

Imagem sob tensão: prática e limites do fotojornalismo


A convidada Gabriela Biló e o convidado Bruno Itan, fotojornalistas, discutiram o poder da imagem e da mensagem a partir da mostra de fotografias autorais, percorrendo as histórias de cada uma e o cenário que se apresentava nas ocasiões.

Junto aos ouvintes presentes, os profissionais debateram sobre a liberdade da função que exercem e o que ela representa no Brasil e no cenário político vivido. Segundo Gabriela Biló, a democracia de um país é medida pela segurança do trabalho dos jornalistas.

Dia 2 – sexta-feira, 31 de julho

Educação nas eleições: que temas são prioritários e que dados podem qualificar a cobertura


A palestra abriu caminhos para a efetividade do uso de dados ao noticiar informações sobre educação, em especial, no período eleitoral. Foi reiterada a importância do tratamento ético e minucioso dos números, a fim de que sejam interpretados de forma contextualizada e mais fiel à realidade possível.

“Educação de qualidade é acúmulo”

Mirella Araújo, repórter no Jornal do Commercio e diretora na Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca)


A mesa reforçou, ainda, que os índices sobre ensino escondem desigualdades em suas entrelinhas. É primordial pensar a educação enquanto uma construção gradual, que necessita de recursos públicos continuamente para garantir qualidade e estabilidade.

O papel do jornalismo investigativo no combate à violência do Estado 


A palestra registrou relatos da produção de matérias que denunciam casos de violações do Estado contra a população periférica, e grifou casos de insegurança vivenciados no processo de investigação dos fatos. Os profissionais pautaram também o papel crucial da Lei de Acesso à Informação (LAI) na apuração e construção das reportagens em canais independentes, bem como a importância da escuta das famílias de moradoras/es dos territórios alvos da violência policial.  

A mesa foi composta por Catarina Duarte, editora na Ponte Jornalismo, e Rodrigo Barbosa, editor de reportagem do Desterro Jornalismo, e mediada por Rafael Soares, repórter especial do Jornal O Globo. Rodrigo apresentou o trabalho do Observatório de violência em Florianópolis, que através do jornalismo denuncia injustiças nas comunidades da capital catarinense. Além de abordar os processos de produção na Ponte, Catarina destacou a recorrência de casos que identifica pessoas negras presas injustamente: 

“É uma falha do sistema de Justiça também. Essas pessoas acabam condenadas por anos, sem provas, porque as coisas só vão avançando. O que a gente vê, acompanhando os casos, é que a política prende, o Ministério Público chancela essa prisão e a justiça chancela sem que sejam produzidas nenhuma prova”

Catarina Duarte, editora na Ponte Jornalismo

O jornalismo como pilar da democracia e liberdade de expressão nas Américas


Em diálogo com entidades internacionais de proteção a jornalistas, as convidadas e o convidado elaboraram sobre a força do jornalismo investigativo no combate à corrupção.

“Proteger o jornalismo por meio da própria prática”

Milagros Salazar, fundadora e diretora da Convoca, portal de jornalismo investigativo e análise de dados

Debatedores levantaram, ainda, diferentes caminhos para a formação de redes de proteção e prevenção de perseguições. Scott Griffen, diretor-executivo do Instituto Internacional de Imprensa (IPI), nomeou as quatro frentes de violência contra jornalistas: discriminação, desinformação, cortes de financiamento e manipulação da mídia.

Eleições nacionais vistas do território: o olhar do jornalismo local 


O tema foi abordado por Arthur Raposo Gomes, diretor do Portal Notícias Del-Rei, e Mariana Carneiro, repórter do Jornal O Popular, e contou com a mediação de João Pedro Pitombo, repórter da Folha de São Paulo e diretor da Abraji. Os profissionais abrangeram os principais desafios e estratégias do jornalismo local, independente ou de imprensa, no diálogo com os territórios sobre as eleições de 2026. 

Enfatizando que as decisões e as narrativas das candidaturas têm efeitos robustos sobre comunidades periféricas, rurais e tradicionais, os presentes ressaltaram a importância de aproximar, dos/as moradores/as as discussões evocadas no Congresso. Prezando pela transparência e democracia, o trabalho local de jornalismo inclui a escuta das demandas dos territórios, a apresentação de diferentes discursos sobre um assunto e até a tradução das temáticas abordadas em PL’s e PDL’s, especialmente as que apontam impactos nas vidas dessas populações. 

Na atividade, os profissionais pautaram as barreiras existentes com a disputa de narrativa, ainda mais latente em cidades menos populosas, em contextos nos quais representantes políticos exercem influências contundentes em veículos de comunicação. O tema também somou relatos diversos sobre a efervescência de páginas não oficiais de informação, caracterizadas pelo uso do humor e pelo alto alcance nas redes sociais; muitas vezes cooptadas por candidatos/as, os veículos tornam-se meios de disseminação de suas narrativas.

Cobrindo um mundo em crise: conflitos, tarifas e autoritarismo


O debate instigou a reflexão crítica sobre as políticas anti-imigratórias do governo estadunidense e as consequências para a atuação de jornalistas que, muitas vezes, sofrem processos de censura e de perseguição.

Os convidados, profissionais de países latinoamericanos, vivem em situação de exílio e relataram os desafios envoltos na ascensão da extrema direita no continente, bem como o desconhecimento e/ou a distorção da percepção social de democracia em seus países de origem.

Mesa de excelência Abraji: corrupção e crimes ambientais 

Na mesa, Bruno Abbud, jornalista freelancer, Karla Mendes, repórter investigativa da Mongabay e Paulo Saldaña, repórter na Folha de São Paulo, compartilharam experiências na produção de pautas investigativas. Os profissionais relataram a elaboração de matérias especiais que denunciam e expõem crimes ambientais e desvios de verbas, abordando a exploração de recursos naturais e os graves prejuízos contra diferentes formas de vida.  

Na partilha de cada fase das investigações, o debate abrangeu desde a atuação de grandes facções com o garimpo em territórios indígenas, ao comércio ilegal de animais marinhos contaminados, distribuídos em escolas públicas e hospitais, além de desvios de investimentos dos fundos de educação. 

Manual de redação indígena: o jornalismo a partir dos povos originários


A sessão marcou o lançamento da versão digital da obra “Poranga Marandúa – Manual de Redação do Jornalismo Indígena”, o primeiro guia jornalístico produzido integralmente por indígenas no Brasil. O material foi construído pela Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor), uma comunidade formada por mais de 70 jornalistas e mais de 45 povos indígenas.

O manual, destinado a jornalistas não-indígenas, reúne orientações para garantir a conduta correta ao veicular informações que envolvam povos indígenas. O conteúdo foi idealizado com o intuito de buscar o respeito à existência e à diversidade dos grupos e de suas culturas, trazendo explicações sobre os termos mais apropriados para noticiar, além de quais verbetes são pejorativos e devem entrar em desuso. Também dispõe de regras sobre como escrever os nomes de diferentes etnias da forma adequada e generalizações a se evitar. O novo guia é uma ferramenta fundamental no combate ao preconceito e na preservação dos povos indígenas do nosso país.

A versão digital está disponível gratuitamente na página da Articulação no Instagram. O lançamento da edição impressa será no dia 10 de agosto, na Câmara dos Deputados, em Brasília/DF.

Dia 3 – sábado, 1º de agosto

Trabalho em condições análogas à escravidão: como investigar e reportar?

Compreender as nomenclaturas corretas ao noticiar um fato é primordial para atingir a compreensão desejada; na temática em questão, existem diversos termos com significados similares. A oficina se dedicou a esclarecer essas dúvidas e a desmistificar a definição de trabalho análogo à escravidão no Brasil, que pode ser constatada a partir da identificação e comprovação de, ao menos, uma da quatro condições listadas na infografia ao lado.

A facilitadora Poliana Dallabrida, editora na Repórter Brasil, e o facilitador Rodrigo Teruel, assessor de projeto do programa de Educação e Políticas Públicas na mesma organização, também abordaram os caminhos para o combate do trabalho escravo contemporâneo. Foram citados órgãos de fiscalização e denúncia, bem como ferramentas e fontes de levantamento de dados sobre possíveis casos.

Mesa de Excelência Abraji: Segurança Pública e Direitos Humanos

A palestra reuniu grandes jornalistas que produziram reportagens sobre segurança pública, a fim de exibir e conversar sobre as escolhas e percalços que envolvem a investigação nesse campo. Ana Beatriz Rocha, repórter e apresentadora da TV Cabo Branco, Artur Rodrigues, repórter no Portal Metrópoles, Rubens Valente, jornalista freelancer, foram os palestrantes da mesa mediada por Renato Menezes, jornalista no G1 Acre. 

A partir da experiência dos/das presentes ao atuar no jornalismo que investiga violência policial, profissionais reforçam a importância de qualificar a checagem e a abordagem, com o intuito de mitigar disputas de narrativas que protejam autores de agressões. A proteção das fontes também é um aspecto fundamental nessa construção e deve priorizar o respeito e a integridade das vítimas de violência.

“Cabe ao jornalismo compreender quem são essas pessoas, quem são essas vítimas […] é isso que faz com que a gente cumpra o nosso propósito, é isso que faz com que a gente descubra o que tá acontecendo, porquê tá acontecendo e de como a gente pode interromper um ciclo que muitas vezes é vicioso e prejudicial, e em nada contribui com a segurança pública”

Ana Beatriz Rocha, repórter e apresentadora da TV Cabo Branco

Dentre as matérias, Artur Rodrigues compartilhou a produção “A política da bala” – Vítimas desarmadas e/ou mortas pelas costas alavancam a letalidade da Polícia Militar de São Paulo, publicada em junho de 2025. A reportagem olha para os dados e vai além dos números ao ouvir familiares e moradores/as afetados/as pela truculência policial, apresentando a leitores/as o atual cenário da capital, por meio do uso de vídeos, infográficos, imagens e áudios.

Do dado ao voto: como usar dados de gênero e raça para qualificar a cobertura de eleições e políticas públicas

A oficina, facilitada por Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número, compartilhou ferramentas de levantamento de dados sobre desigualdades socioeconômicas no país e caminhos para utilizar informações relacionadas a políticas públicas na cobertura eleitoral de forma didática e eficiente.

“Nenhuma política é universalista”

Vitória Régia da Silva, diretora executiva da Gênero e Número

O jornalismo de dados tem uma percepção diferenciada acerca da identificação de problemas a partir do que as bases de dados revelam; afinal, a ausência de registros sobre um determinado tema também é informação. É imprescindível que profissionais adotem dimensões interseccionais, a fim de garantir uma cobertura inclusiva e humana.

Quem fala e como fala: o espaço das mulheres na transmissão e análise do futebol feminino

O momento reuniu mulheres jornalistas do campo esportivo para debater experiências e incoerências percebidas em suas jornadas de atuação. A área, predominantemente ocupada e gerenciada por homens, ainda representa um espaço de opressão e constrangimento para profissionais mulheres que a escolhem; isso acontece dentro e fora dos gramados.

A disparidade de espaço e de investimentos oferecidos, tanto em jornalistas quanto em jogadoras de futebol femininas, é insustentável para a busca por equidade disseminada nos discursos de líderes de times e veículos de comunicação.

Em interação com as/os ouvintes, as palestrantes discutiram, ainda, os recortes dentro da presença hostilizada de mulheres nos espaços esportivos. Mulheres negras são minoria entre as poucas no jornalismo esportivo; a ausência de políticas de incentivo à entrada e permanência, segundo as convidadas, é fator decisivo para a falta de representatividade nas telas e mantém o sonho de meninas e mulheres negras no papel.

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