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Seu Voto Importa: direitos humanos, democracia e soberania nacional estão em jogo nas eleições presidenciais de 2026

Na série de posts nas redes sociais “Seu Voto Importa”, Cendhec soma-se às forças contra a desinformação, em alerta às ameaças aos direitos de crianças e adolescentes, mulheres, pessoas negras, classe trabalhadora e pessoas vulnerabilizadas.

Texto: Camila Deschamps e Luana Farias

Na reta final da eleição presidencial de 2026, a sociedade civil organizada do Brasil manifesta indignação com o avanço desenfreado de projetos e posicionamentos que ofendem a garantia de direitos já conquistados. São tempos de medo, angústia e violência para brasileiros e brasileiras, especialmente para aqueles(as) que mais necessitam de proteção e são alvos de desrespeito à sua dignidade e bem-viver. 

Retratos sociais do Brasil

O Brasil, um país extenso e plural, possui um dos maiores índices de desigualdade no mundo. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), o 1% mais rico da população recebe, atualmente, cerca de 36 vezes a renda dos 40% mais pobres. O que estes números apontam é que, em nosso país, o capital é concentrado em uma parcela minúscula dos brasileiros(as), enquanto quase metade vive em condições diametralmente opostas, atravessadas pela falta de direitos básicos para o bem-viver e distantes do acesso aos espaços de discussão e decisão sobre as políticas públicas que os/as contemplam.

Foto: Camila Deschamps/Cendhec

Essas distâncias não se limitam à disparidade econômica, mas também à desigualdade de gênero. Apesar de representarem mais da metade da população brasileira (IBGE, 2022), são mulheres, e maioria negra, as mais expostas a inseguranças: quase 60% dos lares brasileiros atingidos pela fome são chefiados por elas (relatório Oxfam Davos 2026). Oportunidades de emprego limitadas, políticas trabalhistas restritivas e salários inferiores aos dos homens são apenas alguns dos aspectos atravessados pela misoginia imposta às mulheres no mercado de trabalho.

As pessoas negras, mais de 112 milhões no Brasil, cerca de 55,5% (IBGE, 2022), são as mais afetadas pela desigualdade. Serviços públicos precarizados, falta de creches, escolas e professores/as e transporte público ineficiente mantém a população negra à margem da participação social de forma constante e histórica. São, reiteradamente, as meninas e mulheres negras as maiores vítimas de violência sexual e doméstica no Brasil: elas representam 56,5% dos casos de 0 a 17 anos (Observatório da Mulher Contra a Violência, Senado Federal), além de terem seus corpos insistentemente controlados por uma estrutura política obstinada a excluí-las.

“Seu Voto Importa” | Pelos direitos de meninas e mulheres: https://www.instagram.com/p/DeUYWARlOof/?img_index=1

Nossos adolescentes, invisíveis perante um sistema que não lê além das linhas, ainda enfrentam desafios no acesso à educação, saúde e segurança nos territórios que habitam; as periferias são negras e sua juventude é frequentemente perseguida pela truculência policial. Um estudo realizado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESec) levantou números de mortos/as em decorrência de ações policiais em nove estados brasileiros (Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo). Os dados coletados comprovam a repressão que o Estado exprime a essa população: das 4.330 mortes analisadas, mais de 85% eram de vítimas negras; além disso, quase 65% do total eram jovens de até 29 anos. 

O abandono do poder público se reflete na ascensão de discursos punitivistas e de incentivo ao armamento, somado a violações de direitos das camadas sociais atreladas a este contexto. Historicamente, o parlamento nacional do país conta com representantes que não só banalizam, como também reforçam a vulnerabilidade socioeconômica e as lacunas provocadas pela insuficiência de políticas voltadas às juventudes negras. Escolher uma presidência que olhe para as necessidades dessas populações, e que não agrave as problemáticas, é crucial.

“Seu Voto Importa” | Pelos direitos da população negra: https://www.instagram.com/p/Dd_-JnqCJGf/?img_index=1

Representação e política

Foto: Camila Deschamps/Cendhec

Apesar dos índices revelarem uma maioria de mulheres, negras e pobres na população do nosso país, os espaços de decisão ainda são ocupados, majoritariamente, por homens brancos. Os locais que pautam discussões sobre o futuro do Brasil não representam, de fato, a sociedade em que vivemos. No Senado Federal, apenas 16 das 81 cadeiras são ocupadas por mulheres, ou seja, menos de 20%; na Câmara dos Deputados, o contraste é ainda maior: cerca de 82% dos parlamentares são homens. Para além da desigualdade de gênero, mulheres negras são a minoria entre todos esses grupos, representando apenas 5% do Congresso Nacional.

A falta de representatividade da população negra e feminina na política desencadeia em uma série de posicionamentos que as subjuga, a exemplo dos ataques ao voto feminino e às cotas raciais no acesso ao ensino superior e nos concursos públicos. Contudo, apenas eleger mulheres e pessoas negras não soluciona as desigualdades; para buscar políticas de reparação e geração de oportunidades, é fundamental escolher candidaturas comprometidas com a justiça social. 

O fim do feminicídio, a educação antirracista, a proteção de crianças e adolescentes e dos trabalhadores e trabalhadoras são temáticas caras na luta por uma sociedade mais justa. Elizabete Godinho, coordenadora geral do Cendhec, avalia o trabalho da sociedade civil organizada e reitera a responsabilidade do Estado para o fim das disparidades sociais. 

“Ocorre que, em razão das desigualdades estruturais, alguns segmentos sociais ou grupos socialmente vulnerabilizados vivenciam violações graves nos seus direitos, o que conclama políticas públicas de ação afirmativa e atuação de organizações da sociedade civil à defesa dessas garantias e desses grupos.”

Elizabete Godinho, coordenadora geral do Cendhec

“Seu Voto Importa” | Pelos direitos das mulheres: https://www.instagram.com/p/DdUYgR1CIW9/?img_index=1

Indigne-se, é preciso se posicionar

As forças políticas que ameaçam o bem-viver de tantas e tantos no Brasil, no entanto, são abastecidas com a frieza de quem desconhece o país em que vive. A presença da extrema direita nas eleições subestima a relevância da inclusão feminina nos espaços de decisão e da classe operária no funcionamento da máquina pública.

Foto: Camila Deschamps

É crucial ressaltar que toda a sociedade é responsável pela defesa de crianças e adolescentes, a fim de que os caminhos do sonho e da realização mantenham-se abertos e longe das armas. Apesar disso, os discursos extremistas questionam os direitos garantidos a meninas e meninos por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), propõem o endurecimento de penas e a redução da maioridade penal e ignoram a falta de acesso delas e deles a direitos básicos, prejuízo grave ao seu desenvolvimento pleno e seguro.

“Seu Voto Importa” | Pelos direitos de crianças e adolescentes: https://www.instagram.com/p/DefFnp7GmCi/?img_index=1

Foto: Camila Deschamps/Cendhec

O fundamentalismo cristão e o que esse grupo político chama de “bons costumes” fere o princípio da liberdade religiosa e o direito à vida plena de muitos(as) brasileiros(as). O projeto político que incentiva o ensino religioso nas escolas não entende a amplitude das fés existentes no Brasil e, frequentemente, reprime o debate sobre direitos, combate a violências e enfrentamento às desigualdades de gênero. 

As religiões de matriz africana e indígena sofrem violações históricas provenientes do preconceito e do racismo religioso, ainda pouco enfrentados nas instituições de ensino; 80% dos 500 terreiros ouvidos pela Rede Nacional de Religiões Afro-brasileiras e Saúde (Renafro), em 2025, já sofreram intolerância, contudo, a extrema direita não avalia os ataques como relevantes a serem combatidos, e reiteram as retaliações.

O nosso papel

Neste momento de tensão, é fundamental lembrar que votar é posicionar as recusas e resistir às propostas que atacam o que muito nos vale. Não há espaço para a dúvida diante de ameaças aos direitos de crianças e adolescentes, mulheres, população negra, comunidade LGBTQIAPN+, povos indígenas, quilombolas e demais grupos vulnerabilizados no país. O que está em jogo agora é a garantia da plenitude e da liberdade dos brasileiros e brasileiras, que sofrem o risco de perder conquistas construídas ao longo de décadas de mobilização política. É preciso eleger um presidente comprometido com o fim das violências e que zele pela dignidade de todas e todos.

O Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social (Cendhec), dedicado à defesa de direitos humanos há quase 37 anos, segue posicionado na luta pelo fim das injustiças sociais e pelo bem-viver dos territórios periféricos e de suas crianças, adolescentes e mulheres. Cremos nas instituições democráticas e na soberania do Brasil como o único caminho possível para o bem-estar social e integral. Não há paz sem justiça, assim como não há justiça sem democracia.

“Ir às urnas não é apenas o exercício de um direito político assegurado constitucionalmente. É, sobretudo, decidir sobre os rumos do país, em contexto tão ameaçador de nossa democracia. É uma das formas mais efetivas de participação e fortalecimento da soberania popular na escolha de seus representantes que, no contexto brasileiro, evidenciam esforços para manter e ampliar os avanços dos direitos conquistados a partir da luta de trabalhadores e trabalhadoras.”

Elizabete Godinho, coordenadora geral do Cendhec

O Cendhec manifestou repúdio às ameaças e posicionou-se em resistência política por meio de Carta de Posicionamento. Intitulado “Não há paz sem justiça”, o texto foi escrito pela equipe da organização de forma conjunta e tem o intuito de provocar e convocar toda a sociedade brasileira à ação e alertar a comunidade internacional aos riscos anunciados. 

Neste domingo de segundo turno, 25 de outubro, leve às urnas a consciência de classe e a indignação pelas disparidades sociais. É fundamental lembrar: direitos não são permanentes, precisam ser protegidos a todo momento. Então, sem passos para trás: vista-se das lutas que te movem e escolha esperançar o presente e o futuro!

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