“Ótimo que a tua mão ajude o vôo… Mas que ela jamais se atreva a tomar o lugar das asas”. Dom Helder Camara não conheceu o curso “Libélulas: mulheres protagonistas pela justiça climática”, oferecido pelo Cendhec, mas de certo testemunhou transformações e vôos tão belos quanto.
O inseto que dá nome à formação – a libélula – apresenta em sua estrutura uma cutícula resistente e flexível que o sustenta, mas não aumenta de tamanho. Assim, vai largando a pele e ganhando outra enquanto cresce, rompe-se a pele e sai já com as asas formadas. A descrição do processo de mutação do animal figura bem o que é vivido por alunas da formação política: o desprendimento de amarras e durezas impostas, até finalmente alcançar libertação e redescobrir o crescimento.
Recalcular as rotas, perceber o eco de sua própria voz e (re)aprender o autocuidado na prática. Descobrir asas. É assim que Vânia Rodrigues reescreve a própria história aos 58 anos. Moradora da Comunidade da Linha, no Ibura de Baixo, região da Zona Sul do Recife, há mais de vinte anos, ela encontra no coletivo fôlego para o sonho, olhando para os lados para mirar a frente. A afetuosidade de Vânia constrói pontes sólidas, e, no Libélulas, espelha-se em outras mulheres para a criação de cenários de alegria cotidiana, empoderamento e autonomia na busca por direitos.
Apesar de conduzir tanto amor e cuidado com quem cruza no caminho, a Libélula – como ficaram conhecidas as participantes do curso de formação política – conheceu logo cedo o lugar destinado, pela sociedade, a meninas e mulheres. Para ela, ser forte não foi uma escolha.
Vânia é mãe de Amanda, Poliana e Tamires, e estudante da Educação de Jovens e Adultos (EJA), uma de suas escolhas mais recentes. A sala de aula parecia distante desde a adolescência, quando precisou trabalhar como empregada doméstica. Assim como sua mãe e tantas outras que são evadidas da escola pelo tempo que lhes é desviado para a necessidade de sobrevivência e pela exaustão do trabalho.
“Trabalhei em casa de família. Minha mãe também trabalhava e já me levava com ela. Era tudo: cozinha, limpeza, tudo o que você imaginar. Era quase um trabalho escravo. Acho que eu tinha uns 12 pra 13 anos quando comecei”. Desde muito jovem, a desigualdade de gênero acompanha crianças e adolescentes periféricas que estão na mira de violações de direitos humanos. A disparidade se reflete no acesso a direitos básicos como a educação, saúde e segurança, mas também se apresenta nas dinâmicas de relacionamentos.
Cada palavra que viola e insiste em diminuir uma mulher, a distancia de reconhecer e viver a plenitude de sua grandeza, lhe furta a inteireza de sua identidade. Vânia relata como a experiência de amor nem sempre foi leve.
“Assim como foi o meu primeiro relacionamento, todos os outros que passaram pela minha vida foram abusivos. E a gente, por morar em comunidade e não ter ainda uma formação sobre o que está acontecendo, acaba achando que isso é normal”.
A violência doméstica ergueu inseguranças, motivadas pelas opressões e invalidação de seus saberes e posicionamentos. Como uma das consequências do que viveu, ela replicou em si, por muitos anos, a desconfiança de sua potência. “Por tudo isso, eu estava num ponto de me trancar dentro de casa. De não ter mais vontade de sair, de não querer participar de nada”, conta.
Não é a narrativa de dor que define Vânia Rodrigues. Ela tem nos olhos o brilho que inspira e o poder de enxergar beleza nas sutilezas do cotidiano, encanta-se pelo desejo de mudar a realidade da comunidade em que vive.
O curso Libélulas redesenhou asas e, no último ano, aprendeu como priorizar seus próprios passos e agora reconstrói caminhos de amor, amparada na força coletiva. Segundo a participante, os encontros chegaram na hora em que mais precisava de amparo, escuta e apoio. “No meu primeiro encontro no Libélulas tinha pouco tempo que eu tinha perdido meu filho, em 2023”.
Inspirada pelos aprendizados adquiridos na formação, ministrada pelas assistentes sociais do Centro, Cristinalva Lemos e Lorena Melo, voltou à escola.
O retorno lhe impulsiona ao sonho e proporciona caminhos para realizá-los. Conforme lembra, uma das primeiras aulas da Formação lhe marcou e promoveu transformações importantes. “No segundo encontro, tive uma aula sobre territórios, onde aprendi a falar sobre o meu território, mas também sobre o território maior, que é o meu corpo. Com essa aula, aprendi que tinha direitos, mesmo quando me diziam o contrário”.
As mudanças aconteceram também para a relação com a comunidade em que vive. A partir de um trabalho realizado no curso, as Libélulas perceberam que ninguém conhece mais sua localidade do que elas. Segundo Vânia, a atividade foi essencial para descobrir sobre as origens da sua região, para identificar as formas de lutar contra as negligências.“Era tudo muito novo pra mim, mas aí vieram as aulas, com professoras maravilhosas, com brincadeiras, dinâmicas, formas de aprendizado que nunca tivemos antes na nossa comunidade. Outras formas de aprender”.
Ela encontrou na formação política nome para as dores que passou, identificou as raízes e entendeu o autocuidado como o primeiro caminho para a mudança. De mãos dadas com amigas e vizinhas participantes da Formação, saiu, finalmente, da posição que lhe enrigecia no lugar de sobrevivência contra violações de direitos, e agora caminha com o reconhecimento da potência de sua voz.
Vê no acesso ao conhecimento e no desenvolvimento de saberes partilhados com outras mulheres, novos horizontes, dignos, vivos e prósperos.
Ao longo do ano de 2025, esteve atuante em Atos Públicos junto às alunas do Libélulas, aplicando os conhecimentos acessados dentro da sala e indo às ruas na reivindicação de direitos humanos para populações vulnerabilizadas.
Voar é o novo verbo que impulsiona Vânia, que agora também deseja inspirar outras mulheres na comunidade para o engajamento político, social e cultural no território.
Histórias como a de Vânia nos inspiram a seguir impulsionando narrativas de transformação. Fortalecer atuações de incidência como essas e tantas outras é caminho para a garantia dessa continuidade.
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