Firmada em suas raízes, Leandra aprende a sonhar e a defender direitos no território onde cresceu
É pelas ruas da comunidade do Bode, no bairro do Pina, zona sul do Recife, que Leandra Barbosa constrói suas memórias, afetos e projetos de futuro. Aos 17 anos, carrega no olhar a vivacidade de quem aprendeu cedo a resistir e a se reconhecer como sujeito de direitos, mesmo diante das ausências e das desigualdades que marcam a vida de muitas meninas e meninos das periferias.
Criada pelos avós desde os 11 meses de vida, Leandra cresceu entre brincadeiras na rua (jogar bola, pião, barra-bandeira, dominó), encontros com amigos, jogos no celular e referências musicais que vão do rap ao trap, e cita o cantor Orochi. Única menina entre três irmãos, encontrou na comunidade uma rede de pertencimento. “Eu gosto muito de morar aqui. Aqui estão meus amigos, minha história. Morar em outro lugar seria começar tudo do zero”, afirma.
O encontro com os direitos
Foi por meio de um projeto social do qual participava na própria comunidade que Leandra conheceu o Centro Dom Helder Câmara de Estudos e Ação Social (Cendhec). Nas oficinas sobre direitos de crianças e adolescentes, especialmente aquelas que abordavam a violência sexual, o impacto foi imediato.
“Eu aprendi muito sobre meus direitos como criança e adolescente. Aprendi sobre o meu corpo, sobre as diferenças de gênero e sobre exploração sexual de crianças e adolescentes”, relata.
O conhecimento adquirido não ficou restrito às salas de formação. Ele se transformou em consciência e em desejo de multiplicar aprendizados. Hoje, Leandra atua como monitora, papel que assume com orgulho e responsabilidade, ajudando outras meninas e meninos a compreenderem seus direitos e a se protegerem.
Essa vivência também permitiu que a jovem participasse de eventos e debates promovidos pelo Cendhec, ampliando sua visão sobre as violências que atravessam os territórios periféricos; violências que, como ela mesma destaca, “acontecem em todos os lugares”, mas atingem de forma mais dura as populações em situação de vulnerabilidade social. “É sempre bom instruir jovens e adolescentes, porque na comunidade isso é muito necessário. Muitas crianças não sabem sobre seus direitos, não sabem sobre o próprio corpo. Os meninos precisam aprender a respeitar as meninas”, reforça.
Sonhos possíveis, futuros em construção
Cursando o 2º ano do Ensino Médio, Leandra já se prepara para iniciar em 2026 um curso técnico em Administração, motivada pela possibilidade de inserção no mercado de trabalho. Seu sonho profissional é ser policial e alcançar tudo aquilo que sempre desejou. E quando questionada sobre qual mensagem deixa para os mais novos, ela responde: “Eu diria para nunca deixar de sonhar, principalmente com aquilo que você quer muito alcançar. Não desistir e sempre ter fé”, aconselha.
Fortalecer juventudes é transformar territórios
Histórias como a de Leandra evidenciam a importância de iniciativas que unem educação em direitos humanos, escuta sensível e valorização do território como espaço de vida, memória e cidadania. Ao longo de seus 36 anos de trajetória, o Cendhec tem sido fundamental na formação de crianças e adolescentes, promovendo consciência crítica, proteção, protagonismo e pertencimento.
“O Cendhec é muito importante na vida das pessoas. Eles ensinam muito”, resume Leandra, com a simplicidade de quem traduz uma transformação profunda. Em comunidades historicamente marcadas pela negação de direitos e pela ameaça constante de apagamento, fortalecer infâncias e adolescências é também fortalecer o direito à cidade, à dignidade e ao futuro.
Para que essas ações continuem acontecendo, sua doação é fundamental para garantir que mais pessoas conheçam seus direitos, se protejam de violências e construam futuros possíveis em seus próprios territórios.